Caro álcool, foste tantas vezes minha passagem de classe executiva para lugares melhores; me cedeste tantas identidades sob as quais me camuflei em momentos complexos demais para aturar de nariz empinado. Volta e meio sinto uma absurda vontade de te agradecer! Honrar aquele momento em que fui Maquiavel, e sob teu governo dissequei a estrutura de reinos, julguei e aprimorei cada plano de batalha alheio, sempre adiando lidar com os meus, bajulei a quem fora necessário usufruindo apenas de dons, afiando o paradoxo de quando me fizeste Oscar Wilde, e refleti a respeito da vida entre um cigarro e outro, entre um comentário amargo, e outro malevolente, onde me vi, uma hora ou outra não apenas como crítico, mas também como mentor, onde almejei uma reforma perfeita da sociedade atual, retomando antigos ideais ao vê-los como mais sutis, tão focado na perfeição que por alguns minutos fui Sun Tzu, ofendendo cruelmente aqueles dias gelados de inverno e insônia, nos quais me atribuíste os olhos de Tolstoi. Que ao sentir na face o frio da guerra, fixou em minha mente aquela frase “culparão os planos, despejarão a culpa em qualquer coisa exceto em si mesmos”, me ensinando a admitir as derrotas como principal ou único culpado, mesmo nos momentos em que Conan Doyle teimou comigo por relevar os detalhes e procurar fins mais práticos, mesmo que injustos. Mas algum hebreu barbudo insistiu em dizer que a nobreza de espírito é o maior bem dos homens. Concordei, uma vez que a de corpo não me apetece.
Nos momentos certos, Álcool, tu me permitiste celebrar como Luis XV, tu me deste a segurança de ego que faz Luis XIV ser recordado até hoje. Em um momento ou outro, brincaste com minha índole como fizera com tantos antes de mim, emprestara-me o gosto doce de agir feito um canalha, e o gosto amargo de sentir-se como tal.
Quando me senti sem ter ao que me prender, me apresentaste Chuck Palahniuk, que promoveu a prática mais brilhante da humanidade: o desapego. Então eu sosseguei. Mesmo em meio ao caos, sempre há tranqüilidade - talvez mais freqüentemente em meio ao caos que na teórica paz - e conforto.
Por fim, citaste Salinger, que sempre defendeu o culto ao ego e a procura de ideais verdadeiros, mesmo fazendo questão de empoeirar aquela concepção dourada que a massa tem da juventude. E claro, me lembraste, com os resultados meio bizarros da obra de Salinger, que nada nesse mundo é pra ser levado tão a sério.
Porém nunca me encorajaste a andar até o foco e apertar sua mão, todas as vezes que cogitei vir a precisar dele no futuro, teu efeito me tranqüilizara. Hoje talvez eu precise mais de foco que de ti.




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